24.10.10

Disciplina: METODOLOGIA CIENTÍFICA


Professor Ministrante: Ernâni Getirana, poeta, escritor, professor formado em Letras pela Universidade Federal do Piauí, coordenador do Curso de Letras dessa mesma universidade, com pós-graduação em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e em Lingüística pela Faculdade santo Agostinho. Vencedor em diversos concursos de poesia em nível estadual. Escreveu “Lendas da Cidade de Pedro II”, hoje um livro indispensável para estudiosos, estudantes e leitores que desejam conhecer melhor a alma da “terra da opala”. Membro da Academia Pedrossegundense de Letras e Artes, ocupante da cadeira de número 12 que tem como patrono seu avô materno, Epifânio Pinto Getirana (Bidoca). Além de escreve poesia e prosa, Ernâni compõe, desenha, pinta e já trabalhou com teatro como autor/diretor. É um pesquisador das coisas de Pedro II e como tal, dentre outros projetos, está preparando o livro “Umbanda por Estas Bandas”, que conta a saga dos umbandistas em Pedro II. Email: ernani_limaig.com.br    www.getirana.blogspot.com


1 - INTRODUÇÃO


      Este trabalho não tem a pretensão de abranger todas as questões envolvidas em Metodologia Científica. Trata-se, tão somente, de uma ajuda para consulta por parte dos estudantes dos cursos de graduação, podendo também contribuir aos estudantes de pós-graduação. Qualquer aprofundamento teórico ou prático deverá ser buscado na bibliografia sugerida no final deste trabalho.
      Nossa intenção foi apenas facilitar a busca dos estudantes no que diz respeito aos trabalhos de pesquisa acadêmica. A estrutura deste trabalho, por si só, serve de modelo para um trabalho realizado em sala de aula. Além disso, procuramos apresentar e explicar as regras para cada parte de um trabalho científico.
      Baseados em observações próprias, sem conotação científica, notamos que a disciplina de Metodologia Científica é uma das mais rejeitadas pelos estudantes em praticamente todos os cursos de graduação. É, mais ou menos, como o velho chavão do "odeio matemática", mesmo que a matemática não seja tão terrível assim.
      A disciplina Metodologia Científica é iminentemente prática e deve estimular os estudantes para que busquem motivações para encontrar respostas às suas dúvidas. Se nos referimos a um curso superior estamos naturalmente nos referindo a uma Academia de Ciência e, como tal, as respostas aos problemas de aquisição de conhecimento deveriam ser buscadas através do rigor científico e apresentadas através das normas acadêmicas vigentes.
      Dito isto, parece que fica claro que metodologia científica não é um simples conteúdo a ser decorado pelos alunos, para ser verificado num dia de prova; trata-se de fornecer aos estudantes um instrumental indispensável para que sejam capazes de atingir os objetivos da Academia, que são o estudo e a pesquisa em qualquer área do conhecimento. Trata-se então de se aprender fazendo, como sugere os conceitos mais modernos da Pedagogia.
      Procuramos, na medida do possível, seguir rigorosamente as regras definidas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas - ABNT, para elaboração de trabalhos científicos. Caso alguma regra não esteja sendo cumprida, a responsabilidade é da desatenção do autor.
      A presente obra procura não dificultar as questões que envolvem a elaboração de um projeto e o relatório da pesquisa, portanto pode ser entendida como uma facilitadora da aprendizagem, onde os estudantes poderão consultar, a qualquer hora, para suprimir suas dúvidas quanto aos procedimentos, técnicas e normas de pesquisa.
      Quando falamos de um curso superior, estamos nos referindo, indiretamente, a uma Academia de Ciências, já que qualquer Faculdade nada mais é do que o local próprio da busca incessante do saber científico. Neste sentido, esta disciplina tem uma importância fundamental na formação do profissional. Se os alunos procuram a Academia para buscar saber, precisamos entender que Metodologia Científica nada mais é do que a disciplina que "estuda os caminhos do saber", se entendermos que "método" quer dizer caminho, "logia" quer dizer estudo e "ciência" que dizer saber. Mas aprender a pesquisar é muito fácil.

2 - TIPOS DE CONHECIMENTOS

      Conhecer é incorporar um conceito novo, ou original, sobre um fato ou fenômeno qualquer. O conhecimento não nasce do vazio e sim das experiências que acumulamos em nossa vida cotidiana, através de experiências, dos relacionamentos interpessoais, das leituras de livros e artigos diversos.
      Entre todos os animais, nós, os seres humanos, somos os únicos capazes de criar e transformar o conhecimento; somos os únicos capazes de aplicar o que aprendemos, por diversos meios, numa situação de mudança do conhecimento; somos os únicos capazes de criar um sistema de símbolos, como a linguagem, e com ele registrar nossas próprias experiências e passar para outros seres humanos. Essa característica é o que nos permite dizer que somos diferentes dos gatos, dos cães, dos macacos e dos leões.
      Ao criarmos este sistema de símbolos, através da evolução da espécie humana, permitimo-nos também ao pensar e, por conseqüência, a ordenação e a previsão dos fenômenos que nos cerca.
      Existem diferentes tipos de conhecimentos:
   2.1 - Conhecimento Empírico (ou conhecimento vulgar, ou senso-comum)
      É o conhecimento obtido ao acaso, após inúmeras tentativas, ou seja, o conhecimento adquirido através de ações não planejadas.

      Exemplo:
      A chave está emperrando na fechadura e, de tanto experimentarmos abrir a porta, acabamos por descobrir (conhecer) um jeitinho de girar a chave sem emperrar.

      2.2 - Conhecimento Filosófico
      É fruto do raciocínio e da reflexão humana. É o conhecimento especulativo sobre fenômenos, gerando conceitos subjetivos. Busca dar sentido aos fenômenos gerais do universo, ultrapassando os limites formais da ciência.

      Exemplo:
      "O homem é a ponte entre o animal e o além-homem" (Friedrich Nietzsche)

     
 2.3 - Conhecimento Teológico
      Conhecimento revelado pela fé divina ou crença religiosa. Não pode, por sua origem, ser confirmado ou negado. Depende da formação moral e das crenças de cada indivíduo.

      Exemplo:
      Acreditar que alguém foi curado por um milagre; ou acreditar em Duende; acreditar em reencarnação; acreditar em espírito etc..

      2.4 - Conhecimento Científico
      É o conhecimento racional, sistemático, exato e verificável da realidade. Sua origem está nos procedimentos de verificação baseados na metodologia científica. Podemos então dizer que o Conhecimento Científico:
      - É racional e objetivo.
      - Atém-se aos fatos.
      - Transcende aos fatos.
      - É analítico.
      - Requer exatidão e clareza.
      - É comunicável.
      - É verificável.
      - Depende de investigação metódica.
      - Busca e aplica leis.
      - É explicativo.
      - Pode fazer predições.
      - É aberto.
      - É útil
(GALLIANO, 1979, p. 24-30).

      Exemplo:
      Descobrir uma vacina que evite uma doença; descobrir como se dá a respiração dos batráquios.
 
3 - A CIÊNCIA

      3.1 - Do medo à Ciência

      A evolução humana corresponde ao desenvolvimento de sua inteligência. Sendo assim podemos definir três níveis de desenvolvimento da inteligência dos seres humanos desde o surgimento dos primeiros hominídeos: o medo, o misticismo e a ciência.

         a) O medo:
         Os seres humanos pré-históricos não conseguiam entender os fenômenos da natureza. Por este motivo, suas reações eram sempre de medo: tinham medo das tempestades e do desconhecido. Como não conseguiam compreender o que se passava diante deles, não lhes restava outra alternativa senão o medo e o espanto daquilo que presenciavam.

         b) O misticismo:
         Num segundo momento, a inteligência humana evoluiu do medo para a tentativa de explicação dos fenômenos através do pensamento mágico, das crenças e das superstições. Era, sem dúvida, uma evolução já que tentavam explicar o que viam. Assim, as tempestades podiam ser fruto de uma ira divina, a boa colheita da benevolência dos mitos, as desgraças ou as fortunas do casamento do humano com o mágico.

         c) A ciência:
         Como as explicações mágicas não bastavam para compreender os fenômenos os seres humanos finalmente evoluíram para a busca de respostas através de caminhos que pudessem ser comprovados. Desta forma, nasceu a ciência metódica, que procura sempre uma aproximação com a lógica.
         O ser humano é o único animal na natureza com capacidade de pensar. Esta característica permite que os seres humanos sejam capazes de refletir sobre o significado de suas próprias experiências. Assim sendo, é capaz de novas descobertas e de transmiti-las a seus descendentes.
         O desenvolvimento do conhecimento humano está intrinsecamente ligado à sua característica de viver em grupo, ou seja, o saber de um indivíduo é transmitido a outro, que, por sua vez, aproveita-se deste saber para somar outro. Assim evolui a ciência.

      3.2 - A evolução da Ciência
      Os egípcios já tinham desenvolvido um saber técnico evoluído, principalmente nas áreas de matemática, geometria e na medicina, mas os gregos foram provavelmente os primeiros a buscar o saber que não tivesse, necessariamente, uma relação com atividade de utilização prática. A preocupação dos precursores da filosofia (filo = amigo + sofia (sóphos) = saber e quer dizer amigo do saber) era buscar conhecer o porque e o para que de tudo o que se pudesse pensar.
      O conhecimento histórico dos seres humanos sempre teve uma forte influência de crenças e dogmas religiosos. Mas, na Idade Média, a Igreja Católica serviu de marco referencial para praticamente todas as idéias discutidas na época . A população não participava do saber, já que os documentos para consulta estavam presos nos mosteiros das ordens religiosas.
      Foi no período do Renascimento, aproximadamente entre o séculos XV e XVI (anos 1400 e 1500) que, segundo alguns historiadores, os seres humanos retomaram o prazer de pensar e produzir o conhecimento através das idéias. Neste período as artes, de uma forma geral, tomaram um impulso significativo. Neste período Michelangelo Buonarrote esculpiu a estátua de David e pintou o teto da Capela Sistina, na Itália; Thomas Morus escreveu A Utopia (utopia é um termo que deriva do grego onde u = não + topos = lugar e quer dizer em nenhum lugar); Tomaso Campanella escreveu A Cidade do Sol; Francis Bacon, A Nova Atlântica; Voltaire, Micrômegas, caracterizando um pensamento não descritivo da realidade, mas criador de uma realidade ideal, do dever ser.
      No século XVII e XVIII (anos 1600 e 1700) a burguesia assumiu uma característica própria de pensamento, tendendo para um processo que tivesse imediata utilização prática. Com isso surgiu o Iluminismo, corrente filosófica que propôs "a luz da razão sobre as trevas dos dogmas religiosos". O pensador René Descartes mostrou ser a razão a essência dos seres humanos, surgindo a frase "penso, logo existo". No aspecto político o movimento Iluminista expressou-se pela necessidade do povo escolher seus governantes através de livre escolha da vontade popular. Lembremo-nos de que foi neste período que ocorreu a Revolução Francesa em 1789.
      O Método Científico surgiu como uma tentativa de organizar o pensamento para se chegar ao meio mais adequado de conhecer e controlar a natureza. Já no fim do período do Renascimento, Francis Bacon pregava o método indutivo como meio de se produzir o conhecimento. Este método entendia o conhecimento como resultado de experimentações contínuas e do aprofundamento do conhecimento empírico. Por outro lado, através de seu Discurso sobre o método, René Descartes defendeu o método dedutivo como aquele que possibilitaria a aquisição do conhecimento através da elaboração lógica de hipóteses e a busca de sua confirmação ou negação.
      A Igreja e o pensamento mágico cederam lugar a um processo denominado, por alguns historiadores, de "laicização da sociedade". Se a Igreja trazia até o fim da Idade Média a hegemonia dos estudos e da explicação dos fenômenos relacionados à vida, a ciência tomou a frente deste processo, fazendo da Igreja e do pensamento religioso razão de ser dos estudos científicos.
      No século XIX (anos 1800) a ciência passou a ter uma importância fundamental. Parecia que tudo só tinha explicação através da ciência. Como se o que não fosse científico não correspondesse a verdade. Se Nicolau Copérnico, Galileu Galilei, Giordano Bruno, entre outros, foram perseguidos pela Igreja, em função de suas idéias sobre as coisas do mundo, o século XIX serviu como referência de desenvolvimento do conhecimento científico em todas as áreas. Na sociologia Augusto Comte desenvolveu sua explicação de sociedade, criando o Positivismo, vindo logo após outros pensadores; na Economia, Karl Marx procurou explicar a relações sociais através das questões econômicas, resultando no Materialismo-Dialético; Charles Darwin revolucionou a Antropologia, ferindo os dogmas sacralizados pela religião, com a Teoria da Hereditariedade das Espécies ou Teoria da Evolução. A ciência passou a assumir uma posição quase que religiosa diante das explicações dos fenômenos sociais, biológicos, antropológicos, físicos e naturais.

      3.3 - A neutralidade científica
      É sabido que, para se fazer uma análise desapaixonada de qualquer tema, é necessário que o pesquisador mantenha uma certa distância emocional do assunto abordado. Mas será isso possível? Seria possível um padre, ao analisar a evolução histórica da Igreja, manter-se afastado de sua própria história de vida? Ou ao contrário, um pesquisador ateu abordar um tema religioso sem um conseqüente envolvimento ideológico nos caminhos de sua pesquisa?
      Provavelmente a resposta seria não. Mas, ao mesmo tempo, a consciência desta realidade pode nos preparar para trabalhar esta variável de forma que os resultados da pesquisa não sofram interferências além das esperadas. É preciso que o pesquisador tenha consciência da possibilidade de interferência de sua formação moral, religiosa, cultural e de sua carga de valores para que os resultados da pesquisa não sejam influenciados por eles além do aceitar.
4 - Tipos de Pesquisa

      Este capítulo não era para existir, já que não vejo a menor importância na necessidade de um pesquisador ter que definir o tipo de pesquisa que vai executar. O importante é que o pesquisador saiba usar os instrumentos adequados para encontrar respostas ao problema que ele tenha levantado.
      No entanto são tantas as pessoas que me consultam através desta Home Page sobre este assunto, que resolvi acrescentar este capítulo. O que ocorre aqui parece ser aquele lema conhecido pelos estudiosos da dinâmica educacional: "se podemos complicar para que simplificar?"
      Pesquisa é o mesmo que busca ou procura. Pesquisar, portanto, é buscar ou procurar resposta para alguma coisa. Em se tratando de Ciência a pesquisa é a busca de solução a um problema que o alguém queira saber a resposta. Não gosto de dizer que se faz ciência, mas que se produz ciência através de uma pesquisa. Pesquisa é portanto o caminho para se chegar à ciência, ao conhecimento.
      É na pesquisa que utilizaremos diferentes instrumentos para se chegar a uma resposta mais precisa. O instrumento ideal deverá ser estipulado pelo pesquisador para se atingir os resultados ideais. Num exemplo grosseiro eu não poderia procurar um tesouro numa praia cavando um buraco com uma picareta; eu precisaria de uma pá. Da mesma forma eu não poderia fazer um buraco no cimento com uma pá; eu precisaria de uma picareta. Por isso a importância de se definir o tipo de pesquisa e da escolha do instrumental ideal a ser utilizado.
      A Ciência, através da evolução de seus conceitos, está dividida por áreas do conhecimento. Assim, hoje temos conhecimento das Ciências Humanas, Sociais, Biológicas, Exatas, entre outras. Mesmo estas divisões tem outras sub-divisões cuja definição varia segundo conceitos de muitos autores. As Ciências Sociais, por exemplo, pode ser dividida em Direito, História, Sociologia etc.

      Tentando descomplicar prefiro definir os tipos de pesquisa desta forma:

            Pesquisa Experimental: É toda pesquisa que envolve algum tipo de experimento.

      Exemplo: Pinga-se uma gota de ácido numa placa de metal para observar o resultado.

            Pesquisa Exploratória: É toda pesquisa que busca constatar algo num organismo ou num fenômeno.

      Exemplo: Saber como os peixes respiram.

            Pesquisa Social: É toda pesquisa que busca respostas de um grupo social.

      Exemplo: Saber quais os hábitos alimentares de uma comunidade específica.

            Pesquisa Histórica: É toda pesquisa que estuda o passado.

      Exemplo: Saber de que forma se deu a Proclamação da República brasileira.

            Pesquisa Teórica: É toda pesquisa que analisa uma determinada teoria.

      Exemplo: Saber o que é a Neutralidade Científica.

5 - O PROJETO DA PESQUISA

5.1 - Escolha do Tema

        Existem dois fatores principais que interferem na escolha de um tema para o trabalho de pesquisa. Abaixo estão relacionadas algumas questões que devem ser levadas em consideração nesta escolha:


     5.1.1 - Fatores internos

        - Afetividade em relação a um tema ou alto grau de interesse pessoal.
        Para se trabalhar uma pesquisa é preciso ter um mínimo de prazer nesta atividade. A escolha do tema está vinculada, portanto, ao gosto pelo assunto a ser trabalhado. Trabalhar um assunto que não seja do seu agrado tornará a pesquisa num exercício de tortura e sofrimento.

        - Tempo disponível para a realização do trabalho de pesquisa.
        Na escolha do tema temos que levar em consideração a quantidade de atividades que teremos que cumprir para executar o trabalho e medi-la com o tempo dos trabalhos que temos que cumprir no nosso cotidiano, não relacionado à pesquisa.



     5.1.2 - Fatores Externos

        - A significação do tema escolhido, sua novidade, sua oportunidade e seus valores acadêmicos e sociais.
        Na escolha do tema devemos tomar cuidado para não executarmos um trabalho que não interessará a ninguém. Se o trabalho merece ser feito que ele tenha uma importância qualquer para pessoas, grupos de pessoas ou para a sociedade em geral.

        - O limite de tempo disponível para a conclusão do trabalho.
        Quando a instituição determina um prazo para a entrega do relatório final da pesquisa, não podemos nos enveredar por assuntos que não nos permitirão cumprir este prazo. O tema escolhido deve estar delimitado dentro do tempo possível para a conclusão do trabalho.

        - Material de consulta e dados necessários ao pesquisador
        Um outro problema na escolha do tema é a disponibilidade de material para consulta. Muitas vezes o tema escolhido é pouco trabalhado por outros autores e não existem fontes secundárias para consulta. A falta dessas fontes obriga ao pesquisador buscar fontes primárias que necessita de um tempo maior para a realização do trabalho. Este problema não impede a realização da pesquisa, mas deve ser levado em consideração para que o tempo institucional não seja ultrapassado.



5.2 - Levantamento ou Revisão de Literatura

        O Levantamento de Literatura é a localização e obtenção de documentos para avaliar a disponibilidade de material que subsidiará o tema do trabalho de pesquisa.
        Este levantamento é realizado junto às bibliotecas ou serviços de informações existentes.


     5.2.1 - Sugestões para o Levantamento de Literatura

        5.2.1.1 – Locais de coletas

        Determine com antecedência que bibliotecas, agências governamentais ou particulares, instituições, indivíduos ou acervos deverão ser procurados.


        5.2.1.2 – Registro de documentos

        Esteja preparado para copiar os documentos, seja através de xerox, fotografias ou outro meio qualquer.


        5.2.1.3 – Organização

        Separe os documentos recolhidos de acordo com os critérios de sua pesquisa.

        O levantamento de literatura pode ser determinado em dois níveis:
        a - Nível geral do tema a ser tratado.
        Relação de todas as obras ou documentos sobre o assunto.

        b - Nível específico a ser tratado.
        Relação somente das obras ou documentos que contenham dados referentes à especificidade do tema a ser tratado.



5.3 - Problema

        O problema é a mola propulsora de todo o trabalho de pesquisa. Depois de definido o tema, levanta-se uma questão para ser respondida através de uma hipótese, que será confirmada ou negada através do trabalho de pesquisa. O Problema é criado pelo próprio autor e relacionado ao tema escolhido. O autor, no caso, criará um questionamento para definir a abrangência de sua pesquisa. Não há regras para se criar um Problema, mas alguns autores sugerem que ele seja expresso em forma de pergunta. Particularmente, prefiro que o Problema seja descrito como uma afirmação.

     Exemplo:
Tema: A educação da mulher: a perpetuação da injustiça.
Problema: A mulher é tratada com submissão pela sociedade.


5.4 - Hipótese

        Hipótese é sinônimo de suposição. Neste sentido, Hipótese é uma afirmação categórica (uma suposição), que tente responder ao Problema levantado no tema escolhido para pesquisa. É uma pré-solução para o Problema levantado. O trabalho de pesquisa, então, irá confirmar ou negar a Hipótese (ou suposição) levantada.


     Exemplo: (em relação ao Problema definido acima)
Hipótese: A sociedade patriarcal, representada pela força masculina, exclui as mulheres dos processos decisórios.


5.5 - Justificativa

        A Justificativa num projeto de pesquisa, como o próprio nome indica, é o convencimento de que o trabalho de pesquisa é fundamental de ser efetivado. O tema escolhido pelo pesquisador e a Hipótese levantada são de suma importância, para a sociedade ou para alguns indivíduos, de ser comprovada.
        Deve-se tomar o cuidado, na elaboração da Justificativa, de não se tentar justificar a Hipótese levantada, ou seja, tentar responder ou concluir o que vai ser buscado no trabalho de pesquisa. A Justificativa exalta a importância do tema a ser estudado, ou justifica a necessidade imperiosa de se levar a efeito tal empreendimento.


5.6 - Objetivos

        A definição dos Objetivos determina o que o pesquisador quer atingir com a realização do trabalho de pesquisa. Objetivo é sinônimo de meta, fim.
        Alguns autores separam os Objetivos em Objetivos Gerais e Objetivos Específicos, mas não há regra a ser cumprida quanto a isto e outros autores consideram desnecessário dividir os Objetivos em categorias.
        Um macete para se definir os Objetivos é colocá-los começando com o verbo no infinitivo: esclarecer tal coisa; definir tal assunto; procurar aquilo; permitir aquilo outro, demonstrar alguma coisa etc..


5.7 - Metodologia

        A Metodologia é a explicação minuciosa, detalhada, rigorosa e exata de toda ação desenvolvida no método (caminho) do trabalho de pesquisa.
        É a explicação do tipo de pesquisa, do instrumental utilizado (questionário, entrevista etc), do tempo previsto, da equipe de pesquisadores e da divisão do trabalho, das formas de tabulação e tratamento dos dados, enfim, de tudo aquilo que se utilizou no trabalho de pesquisa.

5.8 - Cronograma

        O Cronograma é a previsão de tempo que será gasto na realização do trabalho de acordo com as atividades a serem cumpridas. As atividades e os períodos serão definidos a partir das características de cada pesquisa e dos critérios determinados pelo autor do trabalho.
        Os períodos podem estar divididos em dias, semanas, quinzenas, meses, bimestres, trimestres etc.. Estes serão determinados a partir dos critérios de tempo adotados por cada pesquisador.

     Exemplo:

ATIVIDADES     /     PERÍODOS
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
1
Levantamento de literatura
X









2
Montagem do Projeto

X








3
Coleta de dados


X
X
X





4
Tratamento dos dados



X
X
X
X



5
Elaboração do Relatório Final





X
X
X


6
Revisão do texto








X

7
Entrega do trabalho









X

5.9 - Recursos

        Normalmente as monografias, as dissertações e as teses acadêmicas não necessitam que sejam expressos os recursos financeiros. Os recursos só serão incluídos quando o Projeto for apresentado para uma instituição financiadora de Projetos de Pesquisa.
        Os recursos financeiros podem estar divididos em Material Permanente, Material de Consumo e Pessoal, sendo que esta divisão vai ser definida a partir dos critérios de organização de cada um ou das exigências da instituição onde está sendo apresentado o Projeto.

     5.9.1 - Material permanente

             São aqueles materiais que têm uma durabilidade prolongada. Normalmente é definido como bens duráveis que não são consumidos durante a realização da pesquisa.
             Podem ser: geladeiras, ar refrigerado, computadores, impressoras etc.

     Exemplo:
ITEM
   CUSTO (R$)   
Computador
1.700,00
Impressora
500,00
Scanner
400,00
Mesa para o computador
300,00
Cadeira para a mesa
200,00
TOTAL:
3.100,00

  
   5.9.2 - Material de Consumo

             São aqueles materiais que não têm uma durabilidade prolongada. Normalmente é definido como bens que são consumidos durante a realização da pesquisa.
             Podem ser: papel, tinta para impressora, gasolina, material de limpeza, caneta etc.

     Exemplo:
ITEM
   CUSTO (R$)   
10 caixas de disquete para computador
100,00
10 resmas de papel tipo A4
200,00
10 cartuchos de tinta para impressora
650,00
TOTAL:
950,00

     5.9.3 - Pessoal

             É a relação de pagamento com pessoal, incluindo despesas com impostos.

     Exemplo:
ITEM
  CUSTO MENSAL (R$)  
  CUSTO TOTAL (R$) 
(10 meses)
1 estagiário pesquisador
500,00
5.000,00
1 datilógrafo
200,00
2.000,00
1 revisor

2.000,00
Impostos incidentes (hipotético)

4.000,00
TOTAL:
700,00
13.000,00

5.10 - Anexos

        Este item também só é incluído caso haja necessidade de juntar ao Projeto algum documento que venha dar algum tipo de esclarecimento ao texto. A inclusão, ou não, fica a critério do autor da pesquisa.

5.11 - Referências

        As referências dos documentos consultados para a elaboração do Projeto é um item obrigatório. Nela normalmente constam os documentos e qualquer fonte de informação consultados no Levantamento de Literatura.
        Exemplos para elaboração das Referências, segundo as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas - ABNT para elaboração das Referências estão expressas no Anexo 1 deste trabalho.

5.12 - Glossário

        São as palavras de uso restrito ao trabalho de pesquisa ou pouco conhecidas pelo virtual leitor, acompanhadas de definição.
        Também não é um item obrigatório. Sua inclusão fica a critério do autor da pesquisa, caso haja necessidade de explicar termos que possam gerar equívocos de interpretação por parte do leitor.

5.13 - Esquema do Trabalho

        Concluído o Projeto, o pesquisador elaborará um Esquema do Trabalho que é uma espécie de esboço daquilo que ele pretende inserir no seu Relatório Final da pesquisa. O Esquema do Trabalho guia o pesquisador na elaboração do texto final. Por se tratar de um esboço este Esquema pode ser totalmente alterado durante o desenvolvimento do trabalho. Quando conseguimos dividir o tema genérico em pequenas partes, ou itens, poderemos redigir sobre cada uma das partes, facilitando significativamente o desenvolvimento do texto.
        Depois de concluída a pesquisa, este Esquema irá se tornar o Sumário do trabalho final.

     Exemplo:

Título: Educação da Mulher: a perpetuação da injustiça

     1 INTRODUÇÃO

     2 HISTÓRICO DO PAPEL DA MULHER NA SOCIEDADE

     3 O PODER DA RELIGIÃO
        3.1 O mito de Lilith/Eva
        3.2 O mito da Virgem Maria

     4 O PROCESSO DE EDUCAÇÃO

     5 O PAPEL DA MULHER NA FAMÍLIA
        5.1 A questão da maternidade
        5.2 Direitos e deveres
        5.3 A moral da família
        5.4 Casamento: um bom negócio
        5.5 A violência

     6 UM CAPÍTULO MASCULINO

     7 CONSIDERAÇÕES FINAIS

5.14 - Resumindo...

Um Projeto de pesquisa, então deveria ter as seguintes características:
     1 - Introdução (obrigatório)
     2 - Levantamento de Literatura (obrigatório)
     3 - Problema (obrigatório)
     4 - Hipótese (obrigatório)
     5 - Objetivos (obrigatório)
     6 - Justificativa (obrigatório)
     7 - Metodologia (obrigatório)
     8 - Cronograma (se achar necessário)
     9 - Recursos (se achar necessário)
     10 - Anexos (se achar necessário)
     11 - Referências (obrigatório)
     12 - Glossário (se achar necessário)

Observação: O documento final do Projeto de Pesquisa deve conter:
     - Capa ou Falsa Folha de Rosto (obrigatório);
     - Folha de Rosto (obrigatório);
     - Sumário (obrigatório);
     - Texto do projeto (baseado nas características enunciadas acima) (obrigatório);
     - Referências (obrigatório);
     - Capa (se quiser).
 

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Novo presidente tem R$ 126 bilhões de gastos à espera no Congresso

 
Lu Aiko Otta e Denise Madueño - O Estado de S.Paulo

Antes mesmo de sentar-se no gabinete do terceiro andar do Palácio do Planalto, o futuro presidente começará a administrar pressões por aumentos da despesas pública. Anunciado o resultado das urnas, começará a negociação para fixar os novos valores do salário mínimo e das aposentadorias, que entram em vigor no dia 1.º de janeiro.
Ed Ferreira/AE-2/9/2010
Ed Ferreira/AE-2/9/2010
Espera. Plenário do Senado: local de decisão das propostas que atualmente tramitam na Casa
Além desses dois itens, despesas cujo tamanho será determinado pelas negociações com as centrais sindicais, o governo terá de segurar, no Congresso, o avanço de uma lista de propostas "gastadoras" que somam R$ 125,9 bilhões. Com esse dinheiro, daria para pagar nove anos do Bolsa-Família aos atuais 13 milhões de beneficiários.
Entre as propostas, figura o reajuste do Judiciário, orçado em pelo menos R$ 6,35 bilhões, e a fixação de um piso nacional unificado para policiais, que custaria R$ 20 bilhões. O projeto mais caro é o que fixa o valor das aposentadorias em número de salários mínimos desde a concessão até hoje - R$ 88,3 bilhões.
Há, ainda, uma herança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: reajustes acertados em 2008 nos salários de algumas categorias de servidores, a serem pagos em parcelas até 2012. Para 2011, o gasto será de R$ 35 bilhões. No ano seguinte, R$ 28,7 bilhões. A parcela de 2011 já está incorporada à proposta de Orçamento Geral da União que tramita no Congresso Nacional.
"Primeiro e último". Com tantas pressões por mais gastos, ficará difícil ao futuro presidente promover o ajuste fiscal defendido por vários economistas como melhor caminho para reduzir os juros. Além de encarecer os investimentos para ampliar a produção no País, as taxas elevadas têm atraído capital especulativo e prejudicando o câmbio. O dólar barato é bom para quem viaja ao exterior ou compra importados, mas é péssimo para a indústria nacional e os exportadores.
O tucano José Serra é apontado por economistas como o que tem melhores condições de promover ajustes fiscais, apesar das promessas de elevar o mínimo a R$ 600, corrigir as aposentadorias em 10%, conceder o 13.º do Bolsa-Família e dobrar o número de beneficiados. "Ele tem um perfil mais fiscalista", disse Felipe Salto, da consultoria Tendências. As promessas dificultariam o ajuste só em 2011, acredita.
"Acho que mínimo de R$ 600 seria o primeiro e último ato populista dele", afirmou o economista-chefe da corretora Convenção, Fernando Montero. Essa avaliação corrobora o discurso adotado pelos sindicalistas, segundo o qual Serra cumpriria sua proposta "populista" em 2011, mas trataria trabalhadores e aposentados a pão e água até 2014. As centrais estão politicamente posicionadas para defender um mínimo inferior a R$ 600 se a vitória for da petista Dilma Rousseff.
Arrecadação. Nas contas do PSDB, o "pacote de bondades" de Serra custaria entre R$ 35 bilhões e R$ 40 bilhões. Os assessores acham que esse gasto extra poderá ser acomodado no Orçamento de 2011 sem prejudicar o equilíbrio das contas.
Eles sustentam que a previsão de arrecadação das contribuições do INSS para o ano que vem poderia ser pelo menos R$ 20 bilhões maior. Além disso, seria possível economizar reduzindo o número de cargos de confiança e cortando verbas reservadas para programas que avançam mais lentamente que o planejado.
O economista Felipe Salto também acha que a arrecadação previdenciária está subestimada, mas num montante menor: cerca de R$ 10 bilhões. Por outro lado, há várias despesas que deverão ocorrer no ano que vem e que não constam do Orçamento de 2011. É o caso, por exemplo, dos R$ 3,9 bilhões reivindicados pelos Estados a título de indenização por perda de arrecadação decorrente da Lei Kandir. Segundo levantamento da consultoria da Câmara dos Deputados, essas despesas chegariam a R$ 17,5 bilhões.
Da candidata do PT, Dilma Rousseff, os economistas não esperam uma grande guinada na área de gastos. O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, já disse que ela provavelmente terá de promover um ajuste nas contas públicas, mas avisou que "não será uma inflexão" como a vista no início do governo Lula. SIGA-ME NO TWITTER @Getirana

21.10.10

FREUD COLOCOU O HOMEME NA PERIFERIA


Por Márcio Derbli
Primeiro foi Copérnico propondo que a Terra não era o centro do Universo. Alguns séculos depois um senhor chamado Darwin decretou: o homem não tem um lugar privilegiado na criação, é apenas o resultado da seleção natural. Em seguida, um médico nascido no antigo império austro-húngaro chamado Sigmund Freud feriu novamente “a megalomania humana” (segundo ele) de ser o centro de tudo: o homem não é o senhor de si, pois o inconsciente é mais determinante em suas ações. Assim, há 110 anos (publicação do livro A interpretação dos sonhos), Freud infligiu à humanidade o que ele, numa conferência em 1917, chamou de terceiro golpe narcísico, ou seja, o terceiro momento da história humana em que o homem deixou de ser o protagonista. Como o próprio Freud disse sobre a psicanálise e seus seguidores: “perturbamos a paz deste mundo”.
A psicanálise surgiu no início do século XX com as primeiras publicações de Freud. O livro A interpretação dos sonhos (1900) é considerado um marco do nascimento da teoria. Um ano depois de formar-se em medicina, em 1881, Freud trabalhou em Paris com o neurologista francês Jean Martin Charcot, interessando-se pelo uso da hipnose no tratamento da histeria. Em seguida, voltando à Viena, junto com Joseph Breuer, ele começou a desenvolver a teoria psicanalítica, propondo que os quadros de sintomas aparentemente neurológicos, mas sem etiologia comprovada – cegueira parcial, paralisia e alucinações –, chamados de histeria tinham, na verdade, origem psicológica. Ou seja, as emoções ou lembranças reprimidas seriam a causa dos sintomas, e, caso as pacientes conseguissem expressá-las, os sintomas desapareceriam. Se inicialmente fica estimulado com os resultados da hipnose, Freud abandona a técnica e propõe o método terapêutico da associação livre, no qual o paciente é orientado a dizer aquilo que lhe vier à cabeça, na ordem que vier, sem nenhum tipo de censura. O método é chamado pelo psicanalista de “regra técnica fundamental da análise”. Exposto inicialmente em A interpretação..., tal método supôs, por princípio, um terreno inconsciente na psique humana. A ideia do inconsciente já existia, principalmente nas artes, mas Freud a alçou à condição de determinante do comportamento e, a partir daí, com a revolução freudiana, o mundo conheceria a verdadeira “peste”, como dizia o próprio Freud.
A teoria disseminou-se por praticamente todo o mundo, de maneira variada em função do momento histórico e das diferentes culturas. Seus seguidores como Alfred Adler, Anna Freud, Melanie Klein, Alfred Bion, Jacques Lacan e tantos outros, continuaram a desenvolver a teoria destacando ou interpretando os ensinamentos de Freud, tornando a psicanálise cada vez mais conhecida e praticada.
Como não poderia deixar de ser, a teoria freudiana foi muito criticada no início. Surgida no seio de uma sociedade bastante restritiva em termos morais, na qual o discurso da sexualidade era praticamente ignorado, a psicanálise sugere que esta mesma sexualidade é responsável pela maior parte dos comportamentos e sintomas humanos e, para piorar, as crianças também vivenciam a sexualidade de diversas maneiras. Natural que a teoria sofresse resistência por parte de diversos setores da sociedade europeia e norte-americana.
Agora, um século e uma década depois, qual o balanço do impacto da psicanálise? Quem e o que ela teria influenciado?
Tanto na Europa, como no Brasil, a psicanálise influenciou diretamente as artes, por exemplo. O Manifesto Surrealista, encabeçado pelo psiquiatra francês André Breton, em 1924, foi profundamente marcado pelas ideias do psicanalista austríaco. No Brasil, a Semana de Arte Moderna de 1922 também recebeu influência da psicanálise, embora a teoria ainda tivesse quase nenhuma repercussão no país. (Leia matéria da ComCiência sobre o assunto).
Segundo Viviane Mosé, psicanalista, mestre e doutora em filosofia, a psicanálise teve uma importância fundamental no século XX: a alteração no modelo de homem e do pensamento racional. Segundo ela, desde o século X antes de Cristo, o homem acredita ser guiado pelo seu pensamento consciente, por sua razão, e a psicanálise fez a crítica sobre a identidade do sujeito. “Ele não é uma identidade, ele é uma guerra, é um conflito e isso é maravilhoso. A psicanálise serviu para tornar o homem mais amplo”, afirma.
Para Angelina Harari, psicanalista e membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP), a teoria não apenas destitui o homem do controle da razão, mas também o desiludiu ao se contrapor à ideia de que ele procura seu próprio bem, ou seja, apontou o mal-estar na civilização e a tendência autodestrutiva do homem em sua subjetividade. A partir daí, segundo a psicanalista, o homem procura curar-se desse mal. Prova disso é a proliferação dos livros de autoajuda e o refúgio em seitas religiosas buscando a preservação contra a autodestruição. “O sujeito senhor de si é a pretensão que nos leva às mais diversas formas de tentar suturar e reforçar uma centralidade”, explica.
Segundo Harari, a principal contribuição psicanalítica para os dias atuais é a contraposição à classificação e à tendência de normalização dos indivíduos, realizada pela sociedade com os diagnósticos massificadores ou os ditames sobre o desempenho dos indivíduos nos círculos em que convive, como o familiar, o social ou o profissional. A psicanálise, segundo Harari, promove essa contraposição pela estimulação, na experiência analítica, da busca da singularidade.
Entretanto, após tantos anos, a psicanálise ainda é útil para o homem contemporâneo? Harari acredita que sim. “Ao analista lacaniano impõe-se sempre ser capaz de compreender a lógica de seu tempo e de estar à altura de sua época”, afirma. Segundo a psicanalista, Lacan (psiquiatra francês, 1901-1981) procurou transmitir aos seus próprios seguidores a importância do diálogo com outros campos do saber e sempre se preocupou com o contexto histórico.
Mosé, por sua vez, acredita que o modelo terapêutico da psicanálise não seja mais eficiente para escutar o homem contemporâneo, pois a técnica faz uma leitura a partir de um homem que não existe mais, alterado essencialmente pelas transformações que ela própria estimulou. Entretanto, ressalta Mosé, a psicanálise continua sendo fundamental e sua importância não diminui. “Hoje os psicanalistas acionam também outras teorias, como a filosofia”, diz ela.
A psicanálise também pode ajudar na compreensão de fenômenos como o bullying uso do poder ou da força para intimidar ou perseguir os outros, na opinião de Harari. “Freud levantou o véu que colocou a descoberto que a inocência não é tão ligada ao infantil. Existem problemas na vida em sociedade, ou seja, a civilização comporta problemas que acarretam certos fenômenos. Determinadas formas de agrupamento revelam-se nocivas”, analisa. Mosé acredita que a violência faz parte do humano e a escola deveria se preocupar mais em formar do que informar. “A violência não está com características diferentes, o seu aumento se dá por imaturidade política e social”, analisa Mosé.
A psicanálise atua com outras disciplinas
Harari conta que a Escola Brasileira de Psicanálise criou laboratórios multidisciplinares que praticam conversações nas escolas públicas e privadas, formando uma rede de pesquisa que coloca a criança como centro de estudo. “As conversações tratam dos problemas que afetam professores também, não somente as crianças. Aí se estuda a questão da inclusão”, explica a psicanalista da EBP.
E se não houvesse a psicanálise? O que poderia ser diferente na sociedade atual? Harari considera que o processo de anulação da individualidade, promovido pela aliança das visões da psicologia e da psiquiatria, teria sido mais perverso. “Sem a resistência da psicanálise não haveria forma de evitar os clichês em detrimento da subjetividade. No lugar dos indivíduos, um por um, com direito a uma forma de ser e gozar, teríamos bipolares, deprimidos, anoréxicos, obesos etc”. Segundo ela, esse processo, em nome de um cientificismo, procura definir um sujeito dentro de um diagnóstico onde cabem milhões e a psicanálise faz resistência a esse processo. “O que não implica em se desfazer do científico, mas sim encontrar sua justa medida”, conclui Harari.
Já Mosé considera que outra teoria teria nascido ocupando o lugar da psicanálise. Segundo ela, a teoria era um saber óbvio do século XIX e outro teórico acabaria construindo uma abordagem similar. Para ela, a psicanálise nasceu a partir de um século, o XIX, que criou a ilusão do homem conquistar a natureza e quando as verdades eram excludentes. Com o surgimento da teoria freudiana, a verdade se desintegrou e agora, em nosso século, partiremos para o momento das conexões, do encontro com a natureza. Quem viver verá.
Referência
Freud, S. (1917) Conferência XVIII: Fixação em traumas – o inconsciente. Obras Completas, V. XVI. Conferências introdutórias sobre psicanálise. pp. 281-292. Imago.


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A INVENÇÃO DA 'PLANITUDE'


Por Carlos Vogt
A Terra não é plana e isso a gente sabe faz alguns séculos. Ao contrário, é plena, densa redonda e “azul como uma laranja” segundo o poeta francês Paul Eluard. A cadelinha Laika, Yuri Gagarin e o Sputinik nos ajudaram a transformar o conceito em percepção sensível e metafórica dessa plenitude azul provocada pelo efeito de luz e cor da massa líquida do planeta, vista ao longe, à distância sideral do que é possível ver e imaginar, no tempo do espaço-tempo tocado como as cordas de um instrumento feito só de buracos negros e minhocas incomensuráveis.
A Terra não é plana, o universo se expande, as teorias para explicá-lo se esticam e tangem os limites da universalidade do que existe, percebido como existindo em aldeias de “planitude” global desadensadas de memória e carregadas de acúmulos flexíveis de informações.
Três projetos de impacto marcaram o século XX: o que levou o homem à Lua, o que o havia levado à bomba atômica e o que o trouxe de volta, pelo Genoma, à tentativa de compreender os segredos bioquímicos de sua própria vida.
Antes, no começo do século, Freud havia apontado as sucessivas quedas do homem, que, parafraseadas, poderiam nos levar a uma espécie de paradoxo do conhecimento, cujos elementos de composição e de articulação seriam os seguintes: o homem tem uma primeira queda quando é expulso do Paraíso, pelo pecado do conhecimento e pelo conhecimento do pecado; tem uma segunda queda, quando, pelo conhecimento, o heliocentrismo substitui a visão geocêntrica do sistema planetário; uma terceira queda o tira da escala de criatura humana por criação divina para colocá-lo na cadeia evolutiva das espécies; cai novamente, desta vez do centro da história, pelas explicações marxistas da economia de suas relações em sociedade; cai, por fim, de si mesmo, ao ser deslocado de seu eu consciente para as forças inconscientes que parametrizam os seus comportamentos, os seus valores e determinam as suas escolhas e opções quando não as próprias formas de como o sujeito é escolhido, apresentado e representado no palco de suas desilusões.
A primeira queda é mítica, a segunda é cósmica, a terceira é biológica, a quarta é histórica e a quinta é psicanalítica.
Caso faça sentido a saga de seus tombos, a conformação do paradoxo está em que quanto mais ele mergulha no conhecimento de suas profundezas e na profundidade do conhecimento de si e do universo que o circunscreve e que ele escreve, mais o homem é emergido para a superfície plana de sua deserdação e para “planitude” desértica de sua solidão solidária.
Por isso também é que o conhecimento é comovente, como atesta o livro Dez teorias que comoveram o mundo, de Leonardo Moledo e Esteban Magnani, publicado no Brasil pela Editora da Unicamp, em 2009, em tradução do original argentino, de 2006.
Escolhidas pelos autores estão o heliocentrismo, a gravitação universal, a teoria da combustão, o evolucionismo, a teoria atômica, a teoria da infecção microbiana, a relatividade, a teoria da deriva continental, a genética e o Big Bang.
Qual seria, então, a forma mais acabada do paradoxo dessa comovente história do conhecimento?
A meu ver, seria simples e transitória como é definitiva e complexa a provisoriedade da vida. Conhecer é um ato de coragem que nos leva de pergunta em pergunta ao confronto de alternativas: ou recusamos o conhecimento como dado, ou nos aventuramos no que nos é dado a conhecer. Neste caso, ainda que a biblioteca de nossos conhecimentos seja “periódica”, ela será também “ilimitada” como enunciou Borges sobre a Babel; no outro, seremos só definitivos e limitados pelos muros abertos do labirinto de areia do deserto de informações.
Há, assim, pelo menos, dois modos de conhecer: aquele que nos abandona e nos perde na “planitude” da informação acumulada, tornando-nos sábios-sabidos; aquele que, mantendo-nos em estado de ignorância crítica ─ o que chamei em outro artigo de ignorância cultural (“Ciência e bem-estar cultural”) ─, nos leva a desconfiar da miragem benfazeja do conhecimento dado e nos põe em constante estado de alerta para o que vem pronto, plano e amiúde, vale dizer, os monumentos instantâneos das certezas passageiras.
Neste caso, é muito provável que todos não sejamos sábios; é certo, contudo, que teremos sabedoria. A sabedoria paradoxal que quanto mais aumenta, mais nos faz crescer em conhecimento e mais nos diminui o conforto passivo das situações objetivas e subjetivas de cada conquista ética e cultural.
Nesse sentido, conhecer é erguer-se para cair, se a saga do conhecimento seguir acompanhada de novas e sucessivas quedas.
Se o paradoxo não evita a queda, ajuda a evitar, contudo, a “planitude” monumental do ruído da informação.

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11.10.10

VOCÊ ESTÁ AQUI



Carlos Ossi, (Jornal O Estado de São Paulo)
As duas bolinhas brancas perto do canto inferior esquerdo do quadro são a Terra e a Lua, vistas a uma distância de 183 milhões de quilômetros, em uma imagem feita pela sonda Messenger, que se encontra explorando a vizinhança de Mercúrio.
Parafraseando Carl Sagan, todos os sábios, poetas, filósofos, tiranos, santos e genocidas; todas as pessoas que você conhece, ignora, respeita, despreza, ama ou odeia vivem, ou já viveram, suas vidas inteiras na bola maior. É lá também que estão todos os seus problemas, sonhos e esperanças.
Todas as guerras e crimes, bem como todos os grandes e pequenos atos de sacrifício e generosidade já registrados em algum momento da história aconteceram lá.
Já a bola menor marca a maior distância já viajada por membros de nossa espécie. É o limite atual da experiência humana.

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4.10.10

ELEIÇÕES 2010: RESULTADO PARA PRESIDENTE POR REGIÃO

Divisão dos votos entre Dilma, Serra e Marina por região


Enviado por Erich Decat -
3.10.2010 23h57m



Norte
Acre
José Serra 52,1%
Marina 23,7%
Dilma 13,6%
Amapá
Dilma 47,2%
Marina 29,8%
Serra 21,3%
Amazonas
Dilma 64,7%
Marina 25,9%
Serra 8,4%
Pará
Dilma 47,7%
Serra 37,7%
Marina 13,5%
Rondônia
Serra 45,4%
Dilma 40,6%
Marina 12,7%
Roraima
Serra 51%
Dilma 28,6%
Marina 18,8%
Tocantins
Dilma 50,9%
Serra 27,9%
Marina 20,5%
Nordeste
Alagoas
Dilma 50,9%
José Serra 36,4%
Marina 11,5%
Bahia

Dilma 62,3%
Serra 20,9%
Marina 15,9%
Ceará
Dilma 66,2%
Marina 16,3%
Serra 16,3%
Maranhão
Dilma 70,5%
Serra 15,1%
Marina 13,6%
Paraíba
Dilma 53,2%
Serra 28,4%
Marina 17,6%
Pernambuco
Dilma 61,7%
Marina 20,3%
Serra 17,3%
Piauí
Dilma 67%
Serra 20,9%
Marina 11,4%
Rio Grande do Norte
Dilma 51,7%
Serra 28,1%
Marina 19,1%
Sergipe
Dilma 47,6%
Serra 38%
Marina 13,2%
Centro-Oeste
Distrito Federal
Marina 41,9%
Dilma 31,7%
Serra 24,3%
Goiás
Dilma 42,2%
Serra 39,4%
Marina 17,1%
Mato Grosso
Serra 44,1%
Dilma 42,9%
Marina 12%
Mato Grosso do Sul
Serra 42,3%
Dilma 39,8%
Marina 16,8%
Sudeste
Espírito Santo
Dilma 37,2%
Serra 35,4%
Marina 26,2%
Minas Gerais

Dilma 46,9%
Serra 30,7%
Marina 21,2%
Rio de Janeiro
Dilma 43,7%
Marina 31,5%
Serra 22,5%
São Paulo
Serra 40,5%
Dilma 37,3%
Marina 20,7%
Sul
Paraná
Serra 43,9%
Dilma 38,9%
Marina 15,9%
Rio Grande do Sul
Dilma 46,9%
Serra 40,5%
Marina 11,3%
Santa Catarina
Serra 45,7%
Dilma 38,7%
Marina 13,9%

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30.9.10

EU SABIA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

A eterna reclamação das mulheres de que os homens se "desligam" sempre que elas resolvem discutir a relação tem fundamento. Uma pesquisa recente mostra que eles realmente deixam de prestar atenção quando percebem no rosto da parceira a expressão de sentimentos como medo ou raiva.
Isso acontece porque, nesse momento, a atividade cerebral dos homens se reduz drasticamente na região responsável por interpretar o sentimento alheio - enquanto nelas, a sensibilidade na mesma área só tende a aumentar. “Quando está sob stress, o homem tende a se 'retirar' socialmente”, explica Mara Mather, autora do estudo e professora da University of Southern, da Califórnia (EUA). "O estudo comprova que o stress agudo pode afetar atividades e interações entre as regiões do cérebro de maneira diferente entre homens e mulheres", completa.
Estudos anteriores já haviam sugerido que a ínsula - parte do cérebro que pertence ao sistema límbico e coordena as emoções - tem um papel crucial em simular as experiências dos outros. Já o pólo temporal - responsável pela memória, fala e audição -, seria importante para entender as emoções alheias. Ambos fazem parte de um processo - que envolve também a amígdala e a região inferior frontal - conhecido por estimular a empatia e a compreensão social.

fonte: Veja

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29.9.10

UMA CAJUÍNA PARA TIO HELI


                                                                                          Paulo José Cunha

A canção “Cajuína”, de Caetano Veloso, belíssimo baião metafísico que levanta a indagação essencial do homem neste mundo (“Existirmos. A que será que se destina?”) foi composta por causa de Tio Heli. Caetano havia chegado a Teresina para um show, estava muito triste. Retornava pela primeira vez à cidade onde havia nascido um de seus principais parceiros na Tropicália e seu grande amigo, o poeta Torquato Neto, meu primo, que havia se suicidado em 1972. Caetano procurou Tio Heli, pai de Torquato. Já se conheciam  do tempo em que Tio Heli ia a Salvador ver Torquato, que estudava na mesma escola de Caetano. Levou Caetano pra casa, serviu-lhe uma cajuína, e procurou consolá-lo, pois Caetano chorava muito, convulsivamente. Em determinado instante, Tio Heli saiu da sala e foi ao jardim, onde colheu uma rosa-menina, que deu a Caetano ("pois quando tu me deste a rosa pequenina/vi que és um homem lindo..."). Ali mesmo os versos de “Cajuína” começaram a surgir, entre antigas fotos do menino Torquato, penduradas pelas paredes.

Tio Heli era dessas pessoas inesquecíveis. Alto, magro, empertigado, adorava caminhar pelas ruas da cidade. Era um caminhador dedicado. Só ultimamente, em razão da idade avançada e do crescimento da cidade, passou a andar de carro. Era avistá-lo ao longe, vindo com suas largas passadas, e logo ele abria os longos braços, preparando o abraço aconchegante, o pedido de bênção (sim, todos em Teresina, jovens e velhos tomavam-lhe a bênção). Xingava amorosamente o abraçado (“seu F...da...P..., não tem vergonha, se esqueceu de mim?”). Fazia um agrado e seguia caminho.

Espírita, amigo pessoal de Chico Xavier, Tio Heli foi um dos mais fiéis seguidores de Kardec, que centrou sua doutrina na caridade. Montou diversas creches em Teresina, salvou a vida de algumas centenas de crianças. Era de vê-lo entrando no Palácio de Karnac, sede do Governo do Piauí, para exigir do governador “leite para minhas crianças”. Não admitia histórias sobre empenhos, prazos para liberação de verbas e outras mutranhas da burocracia. Sabe-se lá como saía de lá com os mantimentos, ou com o dinheiro para adquiri-los. Promotor público aposentado, depois da morte de Torquato passou a usar integralmente o dinheiro da aposentadoria para custear as creches onde salvava as crianças desamparadas. As que chegavam sem registro ganhavam nomes de parentes ou de amigos. Uma vez me disse que havia uns três ou quatro paulos josés por lá...

Este foi o homem que nos deixou. Uma espécie de Quixote sertanejo, de gestos largos, de largos delírios, de intensas efusões de carinho. Um homem feito de afeto. Há pessoas que já chegam ao mundo eternas. Tio Heli é uma delas. Correu a notícia de que teria morrido, no que não acredito. Como acreditar que uma pessoa eterna tenha morrido? Tenho a mais absoluta certeza de que, na próxima visita à minha Teresina, ao entrar na Félix Pacheco, vou avistá-lo, com suas pernas longas e os passos largos e rápidos, a descer a rua, de braços abertos, vindo ao meu encontro. Eu me aconchegarei dentro de seu abraço, beijarei seu rosto cheiroso a loção de barba, e lhe tomarei a bênção. 

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22.9.10

UMA ELEIÇÃO SEM REGRAS

Roberto da Matta - O Estado de S.Paulo
Claude Lévi-Strauss me ensinou que é uma tolice tentar separar forma e conteúdo. A onça é dona do fogo domesticado e civilizador (por oposição ao fogo selvagem e descontrolado) e, por isso, diz o estruturalismo, é preciso saber por que na mitologia grega o fogo era dos deuses que são seres sobre-humanos; ao passo que, na mitologia das sociedades tribais da América do Sul, a posse de elementos essenciais à sociedade, como o fogo, pertence a animais. Saber por que é uma onça que dá o fogo a humanidade é a questão central. É ela que vai ajudar a compreender certos processos e enxergar além das rotinas.
Machado de Assis, décadas antes de Lévi-Strauss, faz algo semelhante no seu conto A Sereníssima República. Nele, uma comunidade de aranhas que quer ser republicana cria partidos e constrói sistemas eleitorais. De saída criam uma agremiação retilínea porque as teias que tecem seriam retas e a reta é o reto: o direito. Surge, porém, uma dissidência que funda o partido curvilíneo porque, para eles, as teias eram de fato curvas e recurvado é a parte boa da natureza. Da discussão, nasce um partido radical: o reto-curvilíneo que, como o nosso governo populista, messiânico, capitalista, personalista e de coalizão, diz que o ideal é chutar com os dois pés e, se possível, usar também a cabeça e a mão. No Brasil, sociedade escravocrata e familística, os partidos são todos trabalhistas e preocupados com os pobres, os famintos e os operários. Não temos partidos de empresários, banqueiros e comerciantes. Fundados os partidos, as aranhas realizam eleições, mas descobrem um fato perturbador: o número de eleitores não bate com os dos votos! Mas como eram aranhas e formalistas, atacaram o problema de modo radical: mudaram o feitio das urnas! E assim foram fazendo como nós, brasileiros pós-modernos e cosmopolitas, que pensamos resolver os nossos problemas mais prementes com leis e por meio do Estado.
Reclamamos que esta eleição não tem debates arrebatadores, capazes de transformá-la num jogo de final de Copa do Mundo, mas - como as aranhas do Cônego Vargas - esquecemos um dado crítico: o modo pelo qual o processo eleitoral tem sido encaminhado desde o seu início. E a marca mais visível de sua paisagem não é exatamente a ausência de grandes projetos, mas a presença de um majestoso projeto de continuidade de poder que, por estar tão presente na nossa mentalidade política, passa tão despercebido quanto as tentativas das aranhas quando tolamente equacionavam a forma das urnas com a honestidade eleitoral.
Ora, o que vivemos hoje no Brasil não é mais a discussão de um plano para liquidar a inflação, deter o comunismo ou o fascismo; ou dividir o latifúndio. Não! O que está hoje em cena é o fantasma de uma total ausência de limites, porque o Poder Executivo abriu mão do seu papel de gerente moral do sistema e virou um entusiasmado cabo eleitoral.
Se tirarmos essa inovação, só temos convergências, pois os problemas são claros e óbvios: é preciso uma reforma política e um sistema eleitoral que amarre os eleitores e os seus representantes de modo inequívoco; é necessário liquidar as suplências e o controle dos partidos sobre os candidatos; é urgente um programa educacional que ensine e viver mais igualitariamente e menos autoritariamente.
Mas, tal como ocorria com as aranhas, o que passa sem discussão é o projeto sem o qual nenhuma disputa pode ocorrer: o respeito pelas regras do jogo, os limites de cada ator junto aos seus papéis, o movimento da sociedade sobre si mesma, fazendo com que seus administradores sejam menos condescendentes e digam não a si mesmos, adotando um comportamento ético.
Esse honrar as normas, essa internalização de limites é o ponto crítico desta disputa eleitoral. Nela, não cabe apenas discutir a morte do planeta e das florestas, as escolas públicas, a violência urbana, a criminalidade e a saúde, mas - sobretudo e acima de tudo - como essas coisas serão alcançadas, como serão implementadas, que tipo de gerenciamento irá torná-las concretas. Em outras palavras, falta um programa que anuncie uma participação maior da sociedade no governo e no Estado. Falta discutir os limites dos papéis vigentes nos cargos do governo para que eles possam ser efetivamente úteis à sociedade para os quais foram criados e não uma fonte de nepotismo e de riqueza ilícita para os seus ocupantes. Numa palavra, falta roubar o fogo da onça. Ou seja: discutir a sinceridade e a ausência de demagogia como programas. Como os programas mais importantes para tornar o Brasil um ator planetário neste século.
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17.9.10

FHC E LULA SÃO EXECUTADOS POR ARTISTA NA BIENAL


A "Série Inimigos", de Gil Vicente, está causando polêmica antes mesmo de ser exposta na Bienal de São Paulo, que será inaugurada na próxima terça-feira. Nela, o artista retrata a si mesmo matando personagens famosos como Fernando Henrique Cardoso e Lula.
Nesta sexta-feira, a OAB-SP (Ordem dos Advogados de São Paulo) divulgou uma nota em que se coloca contra a exposição da série, "por fazer apologia ao crime".
 (fOLHA)

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10.9.10

MANDA ESSA PRO LEONARDO BOFF LER!!!

3 anos fora de casa

Embalado por compromissos que aliam agendas oficiais e de campanha, Lula atinge 1.103 dias em viagens
Eduardo Scolese
Editor-Assistente de Poder
No ritmo das agendas oficiais casadas com eventos da campanha petista de Dilma Rousseff, o presidente Lula completou três anos de seu mandato em viagens.
A marca foi atingida duas semanas atrás, quando a aeronave da Presidência decolou de Brasília com destino a Mato Grosso do Sul.
(...) Até ontem, foram 1.103 dias dentro de um avião ou em agendas oficiais no Brasil ou no exterior, em sete anos e oito meses de governo.
As viagens lhe tomaram 40% dos dias de governo.

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8.9.10

Mulheres estudam mais que homens, segundo IBGE

Dados da Pnad mostram que elas estudam mais tempo em todas as faixas etárias

Priscilla Borges, iG Brasília | 08/09/2010 10:00
As mulheres brasileiras estudam mais do que os homens. A revelação é feita pelos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgada nesta quarta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os dados de 2009 confirmam a tendência mostrada em anos anteriores, mas a distância entre os sexos no quesito instrução aumentou.
Em 2008, os homens brasileiros com mais de 10 anos de idade declararam ter, em média, 6,9 anos de estudo. Número inferior ao ensino obrigatório brasileiro que, até 2009, era de nove anos e, até 2016, passará para 14 anos de estudo. As mulheres já superavam o patamar, estudando, em média, 7,2 anos ao longo da vida. Em 2009, a diferença de pontos percentuais aumentou de 0,3 para 0,4.
Segundo a PNAD, as mulheres brasileiras possuem 7,4 anos de estudo. A população adulta jovem é a que mais se sobressai. A população feminina com idade entre 20 e 24 anos estudou em média dez anos ao longo da vida. Já os homens na mesma faixa etária – a que declarou mais ter estudado – declararam média de 9,3 anos de estudo. A maior diferença está na região Nordeste em que as mulheres têm 6,4 anos de estudo e os homens, 5,6.

Mulheres X homens

A diferença de anos de estudo entre a população brasileira masculina e feminina, por anos de estudo em cada faixa etária
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PNAD 2009 / IBGE

Os dados mostram ainda que a maioria das mulheres brasileiras possui escolaridade superior a oito anos: 16,4% delas têm entre oito e dez anos de estudo e 34,9%, mais de 11 anos. Entre os homens, 31% declararam ter estudado por 11 anos ou mais e 16,6%, entre oito e dez anos.
A taxa de escolarização por grupo etário mostra que as mulheres frequentam mais a escola em todos os grupos analisados pelo IBGE, exceto entre as crianças de 4 ou 5 anos. Nessa faixa, 73,3% dos meninos estão matriculados em escolas, contra 72,3% das meninas.
Entre os 18 e 24 anos de idade, está a maior diferença. Trinta e dois por cento das mulheres brasileiras nessa faixa etária estudam. Entre os homens, a porcentagem cai para 28,9%. A contradição está entre a população analfabeta: as mulheres também são mais numerosas entre elas. Dos 14,5 milhões de analfabetos com mais de 10 anos de idade, 7.411.000 são mulheres.


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